Geoprocessamento permite conhecer melhor a realidade amazônica e fazer projeções para o futuro da região
Fundamental na atuação do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o geoprocessamento tem contribuído para que se conheça de perto a realidade amazônica no que tange a dinâmica do desmatamento e degradação florestal e para projetar cenários futuros, apoiando o debate e a construção de políticas públicas voltadas para a promoção do desenvolvimento sustentável e redução de emissões por desmatamento e degradação na região. Nesta entrevista, a coordenadora de Geoprocessamento do IPAM, a geógrafa Ane Alencar, explica como esta área tem se desenvolvido no Instituto e apresenta alguns dos resultados que tem subsidiado o desenvolvimento de políticas de conservação e desenvolvimento na Amazônia.
Clima e Floresta – No que consiste o trabalho de geoprocessamento no IPAM?
Ane Alencar – O núcleo de geoprocessamento do IPAM usa e desenvolve ferramentas de sensoriamento remoto e sistema de informações geográficas (SIG) para avaliar os principais impactos decorrentes das mudanças climáticas e de uso da terra na Amazônia. As ferramentas de sensoriamento remoto são utilizadas pelo Instituto no processamento digital de imagens de satélite para o mapeamento do desmatamento e degradação florestal, além de apontar o impacto de fenômenos climáticos, por exemplo, secas severas, na dinâmica do carbono regional. Já o SIG é utilizado para organizar o banco de dados espaciais do Instituto e apoiar as pesquisas de modelagem relacionadas à previsão de cenários futuros de desmatamento e degradação florestal decorrentes de políticas de desenvolvimento, como por exemplo o PAC, e do aquecimento global. As análises e mapas desenvolvidos por este núcleo têm sido utilizados ao longo dos mais de quinze anos do IPAM para subsidiar o debate relacionado as políticas públicas de conservação e de desenvolvimento regional, e mais recentemente, políticas relacionadas a promoção do mecanismo de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD). Além disso, o núcleo de geoprocessamento tem apoiado as iniciativas de capacitação e empoderamento dos atores amazônicos do IPAM fornecendo mapas e análises que são utilizados em reuniões, seminários e publicações técnicas do Instituto.
Clima e Floresta – Como o setor de geoprocessamento atua na estrutura do Instituto?
Ane Alencar – O geoprocessamento é um setor transversal no IPAM. Durante vários anos, foi centralizado na sede do IPAM em Belém. No entanto, às vezes não conseguíamos suprir demandas dos projetos mais localizados, como por exemplo, mapas para reuniões ou para apoio à mobilização e à capacitação. Com isso, os escritórios regionais começaram a contratar pessoas para suprir estas demandas locais. Hoje, funcionamos com quatro núcleos: Brasília, que concentra o núcleo de pesquisa em modelagem espacial de uso da terra e degradação florestal do instituto e atende aos projetos de escala nacional, internacional e aqueles desenvolvidos no Mato Grosso; Belém, que atende aos trabalhos de mapeamento participativo e manejo florestal comunitário desenvolvidos nas regiões da BR-163 e Transamazônica; Santarém, que apoia os projetos de regularização ambiental de assentamentos desenvolvidos na várzea e terra firme da região do Baixo Amazonas e; Acre, que apoia as atividades e projetos relacionados aos impactos da expansão e melhoria da rede de estradas no desenvolvimento da região da fronteira trinacional MAP, que inclui os estados do Acre (Brasil), Madre de Deus (Peru) e Pando (Bolívia).
Clima e Floresta – Como são usadas as ferramentas de geoprocessamento nas pesquisas do IPAM?
Ane Alencar – Estas ferramentas são utilizadas e desenvolvidas para facilitar a análise remota das principais dinâmicas de uso da terra na Amazônia, apontar as áreas que tem sofrido maior pressão pelo desmatamento e degradação, identificar os potenciais impactos econômicos e ecológicos das políticas públicas de desenvolvimento e conservação na região, e projetar tendências de mudanças na cobertura vegetal decorrentes de processos antrópicos de uso da terra e fenômenos climáticos. O Programa Cenários para a Amazônia, por exemplo, vem utilizando as ferramentas de geoprocessamento que incluem o sensoriamento remoto e o SIG, para apoiar o desenvolvimento de modelos que indicam o impacto futuro das mudanças climáticas, obras de infraestrutura, unidades de conservação na manutenção das florestas da região.
Clima e Floresta – Como são desenvolvidos os modelos de cenários?
Ane Alencar – De uma forma simplificada, analisamos a dinâmica do desmatamento passado para estimar a perda de floresta no futuro. Assim, por exemplo, podemos utilizar uma sequência de mapas de desmatamento de uma região onde uma estrada foi aberta há dez anos, calcular a taxa de desmatamento desta estrada ao longo destes anos, e utilizar esta taxa para calcular o possível desmatamento de uma outra estrada que esta sendo aberta agora. Outros fatores podem ser adicionados ao modelo tanto para limitar o uso da taxa no tempo como para apontar as áreas mais aptas a serem desmatadas. Estas variáveis incluem o tipo de solo, proximidade de infraestrutura de escoamento e produção, presença de centros urbanos, etc. Todas as variáveis entram em uma equação que gera parâmetros que permitem estimar o desmatamento futuro em regiões semelhantes.
Clima e Floresta – Poderia dar um exemplo concreto?
Ane Alencar – A modelagem de risco de incêndios florestais, que desenvolvemos há vários anos, é um bom exemplo da aplicação do geoprocessamento nas pesquisas desenvolvida pelo IPAM. Neste caso específico, nós desenvolvemos um método para mapear a degradação florestal causada pelos incêndios florestais, resultando em mapas anuais de área florestal queimada para os principais tipos de floresta da Amazônia (densa, aberta e de transição). A partir deste mapeamento anual, nós pudemos entender as principais mudanças no regime do fogo, como frequência e intervalo, e relacionar as mesmas com as mudanças no clima regional e com a dinâmica de fragmentação florestal. Estas relações foram então utilizadas para prever o risco de incêndios em cenários de precipitação média, precipitação extrema ou seca extrema.
Clima e Floresta – Como o geoprocessamento tem colaborado com as pesquisas relacionadas às mudanças climáticas e REDD?
Ane Alencar – Além do próprio desenvolvimento do modelo de previsão do desmatamento estimando a emissão de CO2 devido a mudanças de uso da terra (o primeiro D do REDD), e do desenvolvimento do modelo de risco de incêndios que estima a emissão de CO2 decorrente da degradação florestal por fogo (segundo D do REDD). Um outro exemplo, é o sistema de monitoramento de carbono aplicado nas propriedades do Cadastro Socioambiental do Xingu, realizado em parceria com a Aliança da Terra. A partir de mapas de densidade de carbono, uso da terra, potencialidade de regeneração, degradação florestal e custo de oportunidade (medida econômica que calcula o quanto um hectare de floresta vale para uma determinada atividade), podemos valorar o potencial de emissões e de redução de emissões de uma propriedade, o que pode apoiar e estimular os produtores a acessarem o mercado de carbono. Esse mesmo princípio foi usado para as projeções de distribuição de benefícios dos possíveis créditos gerados pelo REDD feitas para o livro REDD no Brasil: um enfoque amazônico, no qual o IPAM calculou, a partir das taxas de desmatamento por estado e por setor, a porção da redução de emissões para cada estado, dentro de uma política nacional de REDD.
Fonte: Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia – IPAM, acesso em 10 de agosto de 2011.
